A serpente albina teve participação especial no programa Vida de PET, da Rádio Imbiara 91,5 FM. Foto: Caio César/Portal Imbiara
As serpentes ainda carregam uma imagem negativa construída por mitos, crenças culturais e até representações em filmes, mas especialistas alertam que esses animais exercem papel fundamental para o equilíbrio ambiental. O tema foi debatido durante o programa “Vida de Pet”, da Rádio Imbiara, com a participação da bióloga, gestora ambiental e médica veterinária Talita Nazareth.
Segundo Talita, as serpentes são frequentemente mal compreendidas pela população, principalmente devido ao medo associado ao animal. “Existe toda uma construção cultural. Em muitas religiões, a serpente é associada ao mal. Nos filmes, quase sempre ela aparece causando medo ou pânico. Isso fica no imaginário das pessoas”, explicou.
A especialista destacou que, após o contato e a educação ambiental, muitas pessoas mudam completamente a percepção sobre as serpentes. “Quando a pessoa entende o comportamento do animal e conhece a verdadeira importância dele na natureza, percebe que existe muito preconceito”, afirmou.
Durante a entrevista, Talita esclareceu uma das principais dúvidas da população: a diferença entre animais venenosos e peçonhentos. “O animal venenoso possui veneno, mas não consegue inoculá-lo, como o sapo. Já o peçonhento possui mecanismos para inocular a substância, como as presas das cobras e o ferrão dos escorpiões”, explicou.
Ela ressaltou que a maioria das serpentes não possui peçonha e não representa risco às pessoas. “Grande parte das cobras não tem presas inoculadoras de veneno. Elas possuem apenas a dentição normal e não fazem mal ao ser humano”, disse.
A orientação, ao encontrar uma serpente, é manter distância e permitir que o animal siga o caminho. “Se estiver em área aberta, o ideal é aguardar e deixar a cobra ir embora. Caso esteja dentro de residências, o correto é acionar profissionais capacitados”, orientou.
A veterinária reforçou que matar cobras configura crime ambiental e pode gerar penalidades previstas na legislação de proteção à fauna. “Mesmo quando a pessoa não sabe identificar se a serpente é peçonhenta ou não, não deve matar o animal. Além do desequilíbrio ambiental, isso pode ser enquadrado como crime contra a fauna”, destacou.A convidada Talita Nazareth com os apresentadores Edvaldo Gomes e a médica-veterinária Letícia Cardoso, a estreante do dia. Foto: Caio César/Portal Imbiara
Ela também explicou que o resgate deve ser realizado apenas por profissionais treinados, para evitar acidentes e sofrimento ao animal. “Muitas vezes, quando a cobra é ferida, ela agoniza por dias, porque o metabolismo é mais lento. Por isso, o manejo deve ser feito por pessoas capacitadas”, afirmou.
Outro tema abordado foi o aumento de animais silvestres em áreas urbanas. Segundo Talita, isso ocorre devido à redução do habitat natural causada pela expansão das cidades. “O problema não é que os animais estão invadindo a cidade. Na verdade, somos nós que estamos ocupando o espaço deles. Sem alimento e abrigo suficientes, eles acabam vindo para a área urbana”, explicou.
Ela citou o gambá como exemplo de animal importante para o controle biológico. “O gambá é predador natural de cobras e escorpiões. Muitas pessoas têm preconceito contra ele, mas o animal ajuda muito no equilíbrio ambiental”, destacou.
As especialistas também ressaltaram o papel das serpentes no combate a pragas urbanas e rurais, principalmente roedores. “Uma única cobra pode consumir centenas de ratos ao longo do ano. Isso ajuda no controle de doenças como a leptospirose”, explicou Talita.
Ela afirmou ainda que o aumento de serpentes em determinados locais pode indicar desequilíbrio ambiental. “Quando há excesso de roedores, naturalmente começam a aparecer mais cobras para se alimentar”, disse.
Outro ponto esclarecido foi o comportamento das serpentes em relação aos humanos. Segundo Talita, elas não atacam pessoas espontaneamente. “A cobra não quer predar o ser humano. O que acontece é que ela se sente ameaçada e tenta se defender”, explicou.
A especialista afirmou que, muitas vezes, a reação agressiva ocorre porque as pessoas cercam o animal. “Se deixarem espaço, ela vai embora. Mas, quando fazem um círculo ao redor dela, a serpente entra em desespero”, comentou.A veterinária também destacou a importância científica das serpentes, inclusive na produção de medicamentos. “Muita gente não sabe, mas o veneno da jararaca foi utilizado no desenvolvimento do captopril, medicamento usado para hipertensão. Existem também substâncias utilizadas em coagulantes”, explicou.
Talita ainda reforçou a importância da educação ambiental para reduzir o medo e combater maus-tratos contra animais silvestres. “O medo mata. A desinformação mata”, afirmou.
Ela também destacou que o trabalho de conscientização é fundamental para mudar a relação da sociedade com as serpentes. “Precisamos ensinar as crianças, desde cedo, a respeitar os animais e entender que eles fazem parte da natureza. Quando as pessoas conhecem, entendem que elas não são monstros. São animais essenciais para o equilíbrio ambiental”, concluiu.